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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dedicado ao meu cão Bruno, João Van Zeller Vasconcelos


Évora, 26 de abril de 2013

Passo algum tempo sem te ver, pois o tempo em que estou ausente no teu coração, estou a escrever poemas de amor para ti, na escola de André de Resende. Quanto mais tempo fico sem te ver, mais tempo fico ansioso por te ver, o meu coração aumenta de volume e os dedos dos pés estremecem.
Paro de escrever durante algum tempo... e volto a escrever até parar de pensar em ti.
          Acabei de receber a notícia de que o tempo escasseia, ainda bem, quanto menos tempo estiver aqui, passo mais tempo contigo.                                 
Quando chegar à cantina, vou comer mas sem ti, vai ser diferente, quando estou contigo comes de uma tigela, mas estou-me nas tintas.
Conheci-te no verão, eras bebezinho, e assim que te vi fiquei perdidamente apaixonado, pois tu lambeste-me e cheiraste-me sem poder mais.             
Assim que me vês noto que ficas maluco e não pensas em mais nada. Tu podes ser um cão, mas eu sempre te vou animar e tu a mim.
  
                                                    Dedicada ao meu cão Bruno.
        


Todas as cartas de amor...

Fernando Pessoa 
(Poesias de Álvaro de Campos)


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935


Rachel Caiano

18 de maio, também em Évora



terça-feira, 30 de abril de 2013

Exposição de pintura «Ensaio sobre a solidão»

No âmbito dos Recursos de Educação, a Câmara Municipal de Évora tem o prazer de convidar V.ª Ex.ª a visitar a exposição de pintura “Ensaio sobre a solidão” de José Mouga que se encontra no Palácio D. Manuel até ao próximo dia 4 de maio, bem como solicita e agradece a Vossa colaboração na divulgação da exposição junto dos Vossos professores, alunos e funcionários.

Trata-se de um artista da maior importância no panorama das artes plásticas em Portugal, com amplo reconhecimento fora do país que foi durante muitos anos responsável pelo Departamento de pintura no Ar.co e membro da Direção. Foi professor agregado da FBAUL e coordenador do curso de pintura do IAO, da Universidade Autónoma de Lisboa. Está representado nas maiores coleções de arte de vários museus nacionais e estrangeiros.

No sentido de dar a conhecer algumas das obras de José Mouga o Serviço de Cultura da Câmara Municipal de Évora promove visitas de estudo à referida exposição.

A exposição retrata “ (…) figuras imaginárias e tutelares, nítidas e imensas como as sombras de Agosto. Surgiram, (…), do desenrolar de um fio de gestos íntimos e inadiáveis (…) [tecidos] em corpos de tinta da china. Primeiro sozinhas e encostadas a lugares de cal, depois acompanhadas de um cão tão negro como o piano imenso de onde saiam as primeiras notas da sonatina de Diabelli. (…) “.

INFORMAÇÕES_
Visitas guiadas para maiores de 12 anos.
Local | Palácio D. Manuel, Jardim Público de Évora: de 2ª a 6ª das 10h às 12h e das 14h às 18h. Sábados das 14h às 18h.
Todas as visitas têm marcação prévia:
Marcações de visitas |tel.: 266 777000 (extensão 2504 - Margarida Branco | Serviço de Cultura, Artes e Património Imaterial ou 2620 – Palácio D. Manuel, Sílvia Lopes).

HORÁRIOS_
Horário para visitas de> 12 – às 11h ou às 15h, durante a semana.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Para fazer o retrato de um Pássaro

Pintar primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Pintar depois alguma coisa bonita,
alguma coisa simples,
alguma coisa bela,
alguma coisa útil para o pássaro.
Encostar depois a tela a uma árvore num jardim,
num parque
ou numa floresta.
Esconder-se atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer…
Por vezes o pássaro chega depressa,
mas pode também demorar longos anos até se decidir.
Não desanimar;
esperar,
esperar durante anos,
se necessário,
pois não importa
que o pássaro chegue depressa ou que demore,
para se conseguir
um bom quadro.
Quando o pássaro chegar, se chegar,
manter o mais profundo silêncio,
esperar que o pássaro entre na gaiola,
e quando tiver entrado
fechar suavemente
a porta com o pincel.
Depois,
apagar uma a uma todas as barras,
tendo o cuidado de não tocar em nenhuma das penas do pássaro.
Fazer depois o retrato da árvore,
escolhendo o mais belo dos seus ramos para o pássaro.
Pintar também a verde folhagem
e a frescura do vento,
a poeira do sol
e o zumbido dos insetos no calor do verão
e depois esperar que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar é mau sinal,
sinal de que o quadro é mau.
Mas se cantar
é bom sinal,
sinal de que podes assinar.
Então, arranca muito suavemente uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.
(Amanhã podes pintar outro.)

Jacques Prévert
Para fazer o retrato de um Pássaro

Caio Henrique

quarta-feira, 17 de abril de 2013

«Com Unhas e Dentes», Luís Filipe Parrado


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.

20 poemas de amor e uma canção desesperada: Poema 14, Pablo Neruda




Brincas todos os dias com a luz do Universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.
Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo
entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então,
quando ainda não existias.
Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.
Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.
Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha
pelos teus olhos.
Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.
Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só,
ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos
em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.
Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.
Shell Greenier

Oksana Grivina


A Dra Sandra Vinagre, professora de Matemática na Universidade de Évora, visitou mais uma vez a nossa BE para nos muscular o cérebro.