quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A literatura e a vida

«A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar – a reparar na maneira como a minha mãe, digamos, limpa os lábios antes de me beijar; no som de berbequim de um táxi londrino, quando o seu motor a diesel entra flacidamente em ponto morto; na semelhança das linhas brancas nos casacos de cabedal velho com as estrias de gordura em bocados de carne; na maneira como a neve recente “range” debaixo dos pés; na maneira como os braços de um bebé são tão gordos que parecem atados com cordéis (ah, os outros exemplos são meus, mas o último é de Tolstoi!). Esta educação é dialéctica. A literatura faz de nós melhores observadores da vida; e permite-nos exercitar o dom na própria vida; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na literatura; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na vida. E assim sucessivamente. Basta dar aulas de Literatura para perceber que muitos jovens leitores são fracos observadores. Os meus próprios livros, caprichosamente anotados, há vinte anos, nos meus tempos de estudante, mostram-me que eu sublinhava, como dignos de aprovação, detalhes e imagens e metáforas que agora me parecem banais, enquanto ignorava serenamente coisas que agora me parecem maravilhosas. Vamos crescendo como leitores, e leitores de vinte anos são praticamente virgens. Ainda não leram literatura suficiente para serem ensinados por ela a lê-la melhor.»

A mecânica da ficção | James Wood
Quetzal, 2010

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