segunda-feira, 4 de abril de 2016

A mensagem «Era uma vez»…, Luciana Sandroni


      Era uma vez uma… Princesa? Não.
     Era uma vez uma biblioteca. E também era uma vez a Luísa que foi à biblioteca pela primeira vez. A menina andava devagar, puxando uma mochila de rodinhas enoooorme. Ela olhava tudo muito admirada: Estantes e mais estantes recheadas de livros. Mesas, cadeiras, almofadas coloridas, desenhos e cartazes nas paredes.
     – Eu trouxe a foto – disse timidamente para a bibliotecária.
     – Ótimo, Luísa! Vou fazer sua carteira de sócia.
     Enquanto isso pode escolher o livro.
     Você pode escolher um livro para levar para casa, tá?
      – Só um?! – perguntou desapontada.
    De repente, tocou o telefone e a bibliotecária deixou a menina com aquela difícil tarefa de escolher
somente um livro diante daquela infinidade de estantes. Luísa puxou a mochila e procurou, procurou até que achou o seu favorito: Branca de Neve. Era uma edição de capa dura, com lindas ilustrações. Com o livro na mão, puxou a mochila novamente e, quando já saía, alguém bateu no seu ombro. A menina se virou e quase caiu para trás de susto: era nada mais, nada menos que o Gato de Botas com o livro dele nas mãos, quer dizer, nas patas!
    – Bom dia! Como vai sua tia? – brincou o gato fazendo uma reverência. - Luísa, você já não está careca de saber essas histórias de princesas? Por que não leva o meu livro, O Gato de Botas, que é bem mais divertido?
      Luísa, admiradíssima, com os olhos arregalados, não sabia o que dizer.
     – O que houve? O gato comeu a sua língua? – brincou.
     – Você é o Gato de Botas de verdade?!
    – Eu mesmo! Em pelo e osso! Pois, então, me leve para a sua casa e você saberá tudo sobre a minha história e a do Marquês de Carabás.
      A menina, de tão perplexa, só fez que sim com a cabeça.
     O Gato de Botas, num passe de mágica, voltou para o livro, e, quando a Luísa já saía, alguém bateu no seu ombro de novo. Era ela: “branca como a neve, corada como o sangue e de cabelos negros como ébano”. Já sabem quem é?
      – Branca de Neve!? – disse Luísa completamente abobada.
    – Luísa, me leva com você também. Essa edição – disse mostrando o próprio livro – é uma adaptação fiel do conto dos irmãos Grimm.
Quando a menina ia trocar de livro de novo, o Gato de Botas apareceu muito irritado:
      – Branca, a Luísa já se decidiu. Volte lá para os seus seis anões.
     – São sete! E ela não se decidiu coisa nenhuma! – se irritou a Branca ficando bem vermelha de raiva.
      Os dois encararam a menina esperando uma resposta:
      – Eu não sei qual levar. Eu queria levar todos…
      De repente, de repente, aconteceu a coisa mais extraordinária: os personagens todos foram saindo dos seus livros: a Cinderela, a Chapeuzinho Vermelho, a Bela Adormecida, a Rapunzel. Era um time de verdadeiras princesas:
      – Luísa, me leva para a sua casa! – suplicavam todas.
      – Eu só preciso de uma cama para dormir um pouquinho– disse a Bela bocejando.
      – Só cem anos, coisa pouca – ironizou o Gato.
      – Posso fazer a faxina na sua casa, mas à noite eu tenho uma festa no castelo do…
      – Príncipe! – gritaram todos.
      – Na minha cesta eu tenho bolo e vinho. Alguém quer? – ofereceu a Chapeuzinho.
    Depois surgiram mais personagens: o Patinho Feio, a Pequena vendedora de Fósforos, o Soldadinho de Chumbo e a Bailarina:
      – Luísa, podemos ir com você? Somos personagens do Andersen – pediu o Patinho Feio, que nem era assim tão feio.
      – A sua casa é quentinha? - Perguntou a menina dos fósforos.
    – Ihhh, se tiver lareira é melhor a gente ficar por aqui… – comentou o Soldadinho com a Bailarina.
Só que, subitamente, surgiu um lobo bem peludo, enorme, com os dentes afiados, bem ali na frente de
todos:
      – O Lobo Mau!!!!!
      – Lobo, por que essa boca tão grande? – perguntou a Chapeuzinho por força do hábito.
      - Eu protejo vocês! – disse o soldadinho muito corajoso.
      Foi então, que o Lobo abriu a maior bocarra e… Comeu todo mundo? Não. Só bocejou de sono e depois disse muito tranquilo:
    – Calma, pessoal. Eu só queria dar uma ideia. A Luísa leva o livro da Branca de Neve e nós podemos ir dentro da mochila, que é bem grande. Todos acharam a ideia muito boa:
       – Podemos, Luísa? – perguntou a Menina dos Fósforos que tremia de frio.
       – Tudo bem! – disse abrindo a mochila.
       Os personagens fizeram uma fila e foram entrando.
       – Primeiro as princesas! – reivindicou a Cinderela.
       Na última hora, os personagens brasileiros também apareceram: o Saci, o Caipora, uma boneca de pano muito tagarela, um menino muito maluquinho, uma menina com uma bolsa amarela, outra com a foto da bisavó colada no corpo, um reizinho mandão. Todos entraram.
        A mochila estava mais pesada que nunca. Como os personagens pesam!
        Luisa pegou o livro da Branca e a bibliotecária anotou tudo no fichário.
        Mais tarde, a menina entrou em casa na maior alegria, e a mãe gritou lá de dentro:
        – Chegou, filha?
        – Chegámos!

Luciana Sandroni (Rio de Janeiro, 1962)

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